Gottfried

Gottfried Helwein cresceu em um bairro operário de Viena dominado pelos soviéticos pós Segunda Grande Guerra. Neste cenário com uma multidão de pessoas que viviam em silêncio tentando esquecer o passado vivido foi onde se desenvolveu Gottfried. Em entrevista ele conta que fazia perguntas sobre o que havia acontecido e era como se estivesse falando “em outra língua ou eles tivessem sofrido amnésia”, por que nunca era respondido.

Então aos 18 anos decidiu que iria se expressar, não mais com palavras, mas por imagens.

“Eu apenas comecei a formular minhas perguntas agora como imagens e, passo a passo, comecei a desenvolver minha própria linguagem visual”.

Crianças e Violência

Seu tema principal são crianças e violência, em 1979 seus primeiros trabalhos publicados foram em aquarela como:

Life not worth living (1979)

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Publicada na revista austríaca Profil. Neste trabalho uma garota aparece “adormecida” sobre um prado de comida servido. Uma referencia ao caso do psiquiatra Dr Heinrich Gross que admitiu ter matado centenas de crianças envenenadas durante a guerra. Nesta mesma época Helnwein inicia performances onde aparece nas ruas de Viena enfaixado e sujo de sangue, bem como também começou a fotografar crianças enroladas em bandagens. Motivo que se repetiria em suas obras, mais tarde, quando adotaria o estilo hiperrealista em suas telas óleo e acrílico, que o tornariam mundialmente conhecido.

Self Portraits

Nos anos 80 Helnwein desenvolve algumas séries de auto retratos que dariam sequência às performances e origem às coleções Der Untermensch (1987-86), Black Mirror (1987). Antes mesmo, um autorretrato em que Helnwein aparece enfaixado, gritando e com garfos nos olhos tornou-se capa do álbum de Blackout (1982) da banda alemã Scorpions. A contribuição com músicos se estenderia nos anos seguintes, quando Helnwein faria sessões de fotos com a banda de industrial metal alemã Rammstein, em 1997, para o álbum Sehnsucht, e em 2003, quando fotografou o músico americano e amigo pessoal Marilyn Manson e sua esposa à época Dita Von Teese para a coleção The Golden Age. As imagens, inclusive, fizeram parte do CD lançado pelo artista, The Golden Age of Grotesque, que na edição limitada incluiu um DVD intitulado Doppelherz, no qual há um curta de 25 minutos dirigido por Manson e com direção de arte de Helnwein.

SELF-PORTRAITS SELF-PORTRAITS SELF-PORTRAITS SELF-PORTRAITS SELF-PORTRAITS SELF-PORTRAITS

Esse envolvimento com a cultura pop por parte de Helnwein vem desde sua infância, quando ganhou sua primeira revista em quadrinhos do Pato Donald. Em diversos relatos, o artista conta como isso mudou sua vida, na qual ele se sentia tão deslocado por conta da destruição causada pela guerra. Em Memories of Duckburg, o artista escreve que ao ver o personagem pela primeira vez:

Foi como “ver a luz do sol novamente para alguém que estava preso num acidente de mina há muitos dias” . Enquanto tudo era sombrio e fúnebre, pelo sentimento de culpa e morte causado pelos conflitos da grande guerra que há pouco havia se encerrado, Helnwein e sua geração encontravam na cultura pop americana que chegava ao continente europeu uma nova cor à realidade em “preto e branco” e “slow motion” na qual viviam”.

Em entrevista , o austríaco conta que o vácuo causado pela destruição e censura causada pelos nazistas era preenchida pela América com:

“Coca Cola, jeans, carros que pareciam naves espaciais, filmes, quadrinhos e rock’n’roll. A América apresentou um mundo mítico de maravilhas modernas e milagres. Havia belos anjos rebeldes como Elvis, Jimmy Dean, Brando e garotas de beleza fora do comum – coisas nunca vistas antes no nosso dito mundo real. E para mim e muitos de meus amigos esse foi o encontro com provavelmente a maior de nossas inspirações: Pato Donald. O impacto desse choque cultural em nós foi enorme”.

A importância desse personagem seria percebida, por exemplo, nas pinturas das séries The American Paintings (2000-2003), mas em The Disasters of War (2007-2011) e Murmur of the Innocents (2009-2011) não só o Pato Donald como outros personagens da Disney e de animações japonesas (anime) se fazem presentes, além de outras referências ao cinema americano, como no caso da primeira coleção. Ainda, em Faces (1982-1991), Helwnein reúne retratos de diferentes intelectuais e celebridades da cultura pop, reunindo nomes como Andy Warhol, Charles Bukowski, William S. Burroughs, Arnold Schwarzenegger, Michael Jackson e Mick Jagger. Isto é, apesar de sua formação ser clássica, em artes plásticas, Helnwein sempre esteve voltado à cultura pop e à mídia, o que faz com que ele, por vezes, seja chamado de artista midiático5 .

The American Paintings

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Disasters of War

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Murmur of the Innocents

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Mais recentemente, em 18 de outubro de 2012, Helnwein inaugurou exposições na Cidade do México, no Museo Nacional de San Carlos a chamada Faith, Hope and Charity e na Galería Hilario Galguera a coleção Song of the Aurora. Diferentemente de seus outros trabalhos, nos quais crianças loiras e pálidas, desta vez garotas latino-americanas de pele morena foram personagens de suas fotografias que foram expostas em grandes painéis na capital mexicana, como visto na instalação e exibição Santos Inocentes, no Monumento a la Revolución. Esse mesmo tipo de formato já é feito por Helnwein desde os anos 1980, quando em Colônia, em 1988, ele promoveu a polêmica a instalação Ninth November Night. Nove retratos de crianças locais foram expostos em um painel de quatro metros de altura e cem de largura que foi dependurado numa estação de trem localizada entre a Catedral de Colônia e o museu Ludwig. Este local, inclusive, havia sido a ferrovia que durante a Segunda Guerra Mundial havia deportado os judeus para os campos de concentração e, no caso, esse trabalho de Helnwein era em memória ao décimo quinto aniversário da Kristallnacht. Em 2013, o museu Albertina, em Viena, organizou a primeira retrospectiva européia a Gottfried Helnwein em homenagem ao seu 65º aniversário. A exposição, que conta com mais de 150 trabalhos de todas as fases de sua carreira, fica aberta ao público de 25 de maio a 13 de outubro de 2013.

O arquétipo da criança de Jung em Helnwein

“O motivo da criança representa a pré-consciência, o aspecto da infância da psique coletiva”¹ (p.111)
258The Song I (1981), aquarela, Gottfried Helnwein
“Graças à interpretação religiosa da ‘criança’, uma grande parte das evidências que chegaram a nós da Idade Média mostram que a ‘criança’ não era apenas uma imagem tradicional, mas uma visão espontaneamente vivenciada (a tão chamada ‘irrupção do inconsciente’). Estou me referindo à visão de Mestre Eckhart do ‘garoto nu’ e do sonho de Irmão Eustachius”² (p.106).
3472The Murmur of the Innocents 5 (2009), tinta a óleo e acrílica em tela, Gottfried Helnwein

“Como artista, você deve procurar a solidão, por dentro. Em algum momento, você deve superar as convenções, essas doutrinas, tudo que não faz sentido e seguir seu próprio caminho. Não há saída. Assim, o artista será sempre, até certo ponto, o antagonista da sociedade. Ele sempre parecerá suspeito. Sempre estará nos limites da ilegalidade ou pelo menos do embaraço. É inevitável. Mas um artista também vive dentro da sociedade, e seus trabalhos refletem essa sociedade, o tempo, seus medos, seus desejos, a loucura, a falta de sentido, expressando isso em sua arte. Então ele precisa estar firmemente enraizado em sua sociedade. O artista anda por uma corda bamba entre a criação de seu próprio universo fora da sociedade, enquanto permanece até certo ponto dentro dela. Essa é a grande questão… é o trabalho de Sísifo de cada artista.” Gottfried

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O austríaco é conhecido pelas fotos promocionais que fez para bandas como Marilyn Manson e Rammstein. Em ambas as oportunidades, o artista reforçou a imagética nacional socialista acompanhada de outros elementos que são (ou foram) incômodos às pessoas – como o caso da maquiagem “cara preta”, emprestada do teatro Vaudeville. O austríaco também tem como temática de sua obra o uso de figuras da cultura pop, como o pato Donald e outros personagens da Disney, além de bonecos de ação de desenhos japoneses. Em diferentes trabalhos em mixed-media (pintura em tela com acrílico), Helnwein incorpora esses elementos junto à imagem de crianças. Para ele, a Disney e a cultura pop americana foram o que preencheu o vazio pós-Segunda Guerra Mundial, em que as ruas vienenses eram só destroços e silêncio. Enquanto os pais e demais parentes não respondiam as perguntas das crianças, curiosas com o passado, toda uma geração cresceu usando calças jeans e bebendo Coca Cola. Para Helnwein, então, o Pato Donald se tornou um herói devido ao grande choque de culturas que a personagem provocou.

 

Der Ring des Nibelungen
Dancer Osvaldo Ventriglia
Maske Gottfried Helnwein

http://youtu.be/Yt-x6Jn4at8

Esta foi apenas uma pequena mostra de um artista tão prolifico como Gottfried.
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